Catarse e Encantamento: José Miguel Wisnik entre a Literatura e a Música
Gostaria de iniciar este texto tomando como referência a palavra “catarse”, que vem do grego antigo kátharsis (κάθαρσις), significando purificação, limpeza ou purgação. Deriva do verbo kathaírein (καθαίρειν), “limpar”, “purificar”. Mas não pretendo tomá-la aqui no sentido estrito aristotélico, em que, na Poética[1], indica o efeito da tragédia sobre o espectador – uma espécie de alívio emocional por meio do medo e da piedade, decorrente de uma experiência de intensa liberação. Digo isso porque José Miguel Wisnik, durante a palestra proferida em Goiânia, em 27 de março de 2026, percorreu um itinerário de deleite como orador, desviando-se da linha reta e evitando trazer definições prontas ou fechadas a respeito da literatura e da música.
Proponho ao leitor uma dupla leitura dessa experiência. A primeira diz respeito à própria condição em que o orador se coloca: ele apresenta a relação histórica entre literatura e música no Brasil, marcadas por uma profunda interdependência, na qual se complementam na construção da identidade cultural brasileira, alternando momentos de distanciamento e de fusão. Desse modo, percorre essas curvas sinuosas ao falar de Ernesto Nazareth, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Racionais e Vinícius de Moraes.
A segunda diz respeito ao êxtase em que se vê o espectador, em pleno fim
de tarde de uma sexta-feira incomum, vivenciando um pico emocional intenso que
gera, ao final, uma sensação de alívio, como se tais emoções fossem processadas
ou liberadas, proporcionando leveza e renovação. Leveza, aqui, compreendida
como uma válvula de escape em meio a uma rotina tão atarefada e a tantos
compromissos.
O ser humano não vive somente do que toca, mas também do que imagina, do
que projeta, do que sonha de olhos abertos enquanto atravessa a aspereza dos
dias. Tanto a música quanto a literatura nascem dessa região em que a
realidade, por si só, parece insuficiente. Elas não negam o real; antes, o
transfiguram. Dão ao sofrimento uma forma suportável, ao espanto uma linguagem,
à alegria uma permanência. Onde a existência seria apenas uma sucessão de
horas, a arte inscreve sentido; onde haveria apenas ruído, ela compõe um canto.
Sem arte, o ser humano corre o risco de se tornar eficiente e vazio,
exato e árido, próspero por fora e desabitado por dentro. Porque a técnica
ensina a fazer, mas nem sempre ensina a sentir; a lógica organiza, mas não
necessariamente ilumina. A arte, por sua vez, devolve espessura à experiência,
lembrando que não somos máquinas de produzir nem relógios de cumprir. Ainda que
não se trate de uma tragédia tradicional, como nos legou o filósofo grego, a
experiência vivenciada no auditório do Tribunal Regional Eleitoral purificou
simbolicamente os sentimentos do público, tornando a catarse uma experiência de
crescimento pessoal e de autoconhecimento.
O ensaísta e compositor paulista discorreu sobre a música, desde as
cantigas trovadorescas, passando pela MPB (Música Popular Brasileira), até a
poesia sonora contemporânea, consolidando-a como 'música de palavras' ou como
diálogo melopoético, especialmente em produções contemporâneas — como as de
Caetano Veloso, por exemplo — que combinam múltiplas linguagens, indo além dos
estudos interartes tradicionais e focando na materialidade e na relação social
entre os meios.
Ao falar da música brasileira, o professor também fala de encontros:
entre povos, línguas, ritmos, crenças e modos de viver. Isso porque, desde o
período colonial, o território brasileiro se constituiu como um espaço de
intensa mistura cultural, que encontrou na música uma forma privilegiada de
permanência e transformação. Por isso, a tradição musical do Brasil deve ser
entendida como um processo contínuo de criação coletiva, no qual o passado
permanece vivo ao ser reinterpretado por cada geração.
José Miguel Wisnik nos lembra de que, em suas origens, a música
brasileira foi marcada pela presença de três matrizes principais: a indígena, a
africana e a europeia. Dos povos indígenas vieram práticas ligadas ao canto
ritual, ao uso de instrumentos simples e à relação entre música, natureza e
espiritualidade. Da Europa, sobretudo de Portugal, vieram estruturas melódicas,
instrumentos como a viola e formas associadas à música religiosa e popular. Já
as populações africanas escravizadas trouxeram contribuições decisivas para a
formação rítmica do país, introduzindo padrões de percussão, modos de canto
responsorial e uma compreensão da música como experiência comunitária e
corporal. A tradição musical brasileira nasce, assim, não de uma fonte única,
mas de um diálogo muitas vezes desigual, porém profundamente fecundo.
Ao longo do tempo, esse encontro deu origem a manifestações regionais
extremamente ricas. No Nordeste, o maracatu, o frevo, o baião e o forró revelam
a força de tradições populares ligadas à festa, à resistência e à vida
cotidiana. No Sudeste, o samba tornou-se um dos maiores símbolos nacionais,
especialmente por sua capacidade de unir heranças africanas, vida urbana e
criação poética. No Norte, os ritmos amazônicos preservam vínculos fortes com
festividades religiosas, lendas e expressões caboclas. No Sul, encontram-se
influências indígenas, africanas e europeias em gêneros vinculados à cultura
gaúcha e às tradições de fronteira. Essa variedade mostra que não existe uma
única música brasileira, mas muitas musicalidades brasileiras, todas
articuladas por uma mesma lógica de reinvenção.
Entre todos os gêneros, o samba ocupa posição central na compreensão da
tradição musical do país. Nascido de práticas afro-brasileiras e consolidado
nos espaços urbanos, especialmente no Rio de Janeiro, o samba tornou-se mais do
que um gênero: converteu-se em linguagem cultural. Nele convivem festa e
crítica, alegria e memória, dança e narrativa social. O samba de roda, o
partido-alto, o samba-canção e o samba-enredo mostram que a tradição não é
repetição mecânica, mas desdobramento. Cada forma mantém traços do passado ao
mesmo tempo que responde a novas realidades históricas.
No século XX, a música popular brasileira ampliou ainda mais essa
herança. A bossa nova, a MPB, o tropicalismo e tantos outros movimentos
dialogaram com a tradição sem se limitarem a ela. Em vez de romper
completamente com o que veio antes, muitos artistas brasileiros transformaram a
tradição em matéria de experimentação. Essa capacidade de combinar raiz e
inovação talvez seja uma das marcas mais notáveis da música no Brasil. Mesmo
quando incorpora influências estrangeiras, a produção musical brasileira tende
a reelaborá-las a partir de sensibilidades locais, preservando um vínculo
profundo com sua própria história.
Além de seu valor estético, a tradição musical brasileira também cumpre
uma função social e política. A música tem sido veículo de memória, denúncia,
celebração e pertencimento. Em muitos contextos, ela deu voz a grupos
marginalizados, preservou heranças ameaçadas e fortaleceu identidades
coletivas. Festas populares, rodas de samba, congadas, blocos carnavalescos,
cantorias e celebrações religiosas demonstram que a música, no Brasil,
frequentemente ultrapassa o palco e o mercado: ela organiza a vida em comunidade
e transmite saberes entre gerações.
Entretanto, essa tradição enfrenta desafios. A padronização da indústria
cultural, a desigualdade no acesso à produção artística e o apagamento de
expressões regionais podem enfraquecer a diversidade que caracteriza a música
brasileira, contexto que na primeira metade do século XX, já era discorrido por
Mário de Andrade (1893-1945)[2].
Preservar essa tradição não significa colocá-la em um museu, mas garantir
condições para que ela continue viva, circulando entre mestres populares,
artistas contemporâneos, escolas, comunidades e novos meios de comunicação.
Somos criaturas atravessadas por memórias, desejos, lutos, êxtases e
perguntas sem resposta, e a arte é a morada provisória desses questionamentos.
Quando a dor encontra forma, deixa de ser apenas ferida e começa a tornar-se
narrativa, música, imagem. O caos, então, ganha contorno. A lágrima de uma
separação, como em “Drão”, de Gilberto Gil, ao ser cantada, já não é apenas
queda: é também um outro brilho. Nesse sentido, a arte não elimina a tragédia
humana, mas lhe oferece um novo modo de seguir essa travessia. Faz do
sofrimento matéria de beleza, não para embelezar a dor, mas para impedir que
ela seja estéril.
Por isso, a arte é necessária. Não como luxo das horas abundantes, mas como alimento necessário para os dias difíceis. Ela é o pão invisível da interioridade, a chama que tremula quando o mundo parece excessivamente escuro, a linguagem com que a alma tateia aquilo que não consegue dizer de outro modo. Se o ser humano precisa compreender o mundo, precisa também cantá-lo; se necessita habitá-lo, necessita igualmente recriá-lo. No fim, talvez seja essa a verdade visceral: tanto a literatura quanto a música sejam necessárias porque o ser humano não nasceu apenas para sobreviver, mas também para significar, para bordar estrelas sobre a noite, arrancar do silêncio uma forma, oferecer à fugacidade da vida um gesto de permanência. A arte é esse gesto: frágil e luminoso, humano e, ao mesmo tempo, quase sagrado como nos fez perceber José Miguel Wisnik.
[1] ARISTÓTELES. Poética. Edição bilingue.
Tradução, introdução e notas: Paulo Pinheiro. São Paulo: Ed. 34, 2019.
[2] A música popular, na concepção de Mário de Andrade, refere-se a uma
expressão autêntica da cultura do povo, com raízes profundas nas tradições
musicais e sociais das diferentes regiões do Brasil. Por outro lado, o termo “popularesca”
é utilizado pelo autor de maneira crítica, para designar um tipo de música que
busca imitar ou simular a música popular, mas de forma superficial e muitas
vezes comercial, sem a profundidade e o vínculo com as tradições culturais que
caracterizam a verdadeira música popular. Tudo isso por ser comprovado, por
exemplo nas obras Ensaio sobre a música brasileira (1928), Compêndio
da história da música (1929) ou mesmo em tantos ensaios e crônicas que
publicou.



Comentários
Postar um comentário