Sobre Cartas e Travessias - Um Missivista Contumaz
A correspondência do escritor
paulistano era, acima de tudo, instrumento de formação e orientação entre pares.
Seu relacionamento com Fernando Sabino é um exemplo claro dessa dimensão
didática. Quando o então jovem escritor mineiro enviou um exemplar de “Os
Grilos Não Cantam Mais”[1] para Andrade, este não
hesitou em responder com sua avaliação. O impacto desse diálogo foi
determinante na carreira de Sabino, que passou a ter no escritor paulista uma
espécie de mentor. A correspondência entre os dois revela um interlocutor mais
maduro que não apenas encorajava, mas exigia disciplina e aprimoramento
estilístico, reforçando sua postura de intelectual comprometido com o
desenvolvimento da literatura brasileira.
O mesmo rigor crítico aparece em
sua relação epistolar com Manuel Bandeira, com quem trocou um volume
substancial de cartas, talvez o maior, compondo um dos diálogos mais ricos da
literatura brasileira. O poeta pernambucano, que vivia no Rio de Janeiro, via
em Mário um interlocutor atento, e as cartas entre os dois revelam discussões
profundas sobre arte, estética, teoria literária e reflexões sobre o ofício do
poeta. Bandeira se referia às missivas do amigo como “pensamentadas”[2], uma denominação que
reconhecia a complexidade reflexiva desses escritos. Para ele, as cartas de
Mário eram mais do que registros pessoais; eram espaços de debate, planejamento
e maturação de ideias.
Essa relação epistolar entre os
dois modernistas teve momentos de franqueza crítica. Bandeira pedia a Mário
opiniões sem complacência sobre seus poemas e lamentava quando não recebia um
retorno mais incisivo. Já Mário, em resposta, reconhecia a necessidade de ser
mais crítico, mas ao mesmo tempo manifestava um certo receio em ser mal
compreendido.
Além das discussões sobre poesia,
as cartas trocadas entre Mário e Bandeira revelam também a preocupação com a
construção de uma literatura nacional, posto que tinham concepções distintas
sobre o lirismo e a estrutura da poesia moderna, como demonstram os debates
sobre verso livre, ritmo e sentimentalismo. Enquanto Bandeira afirmava que o
lirismo bastava por si só, Mário insistia que a poesia exigia mais do que
inspiração: precisava de crítica e consciência técnica. Nesse sentido, o que se
percebe é um diálogo de caráter tanto técnico quanto afetivo, sendo uma troca
sincera sobre projetos, ideias e até angústias existenciais.
Outro importante interlocutor de
Mário foi Luís da Câmara Cascudo, com quem manteve uma frutífera correspondência
entre 1924 e 1944. Nesses vinte anos, os dois construíram uma relação que
transcendeu a troca de ideias sobre folclore e cultura popular, consolidando-se
como uma amizade firme e verdadeira. O historiador e sociólogo potiguar, um dos
mais respeitados estudiosos da cultura popular brasileira, encontrava em Mário
um parceiro de reflexões sobre a identidade nacional e a valorização das
manifestações populares. Nas cartas, fica evidente a influência mútua e o
compromisso compartilhado com o registro e a preservação da cultura brasileira.
Mário via em Cascudo um amigo de confiança, alguém que, apesar da distância
geográfica, lhe oferecia um suporte intelectual e afetivo. Em uma das cartas, o
escritor paulista chega a declarar que havia arranjado um “amigo mesmo de
verdade”[3].
Além de Sabino, Bandeira e
Cascudo, Andrade manteve correspondência com Carlos Drummond de Andrade,
Prudente de Morais Neto, Pedro Nava, Tarsila do Amaral, Portinari, Oneyda
Alvarenga, escritores argentinos e tantos outros. Suas cartas a Drummond, por
exemplo, eram repletas de reflexões sobre poesia e modernismo, sempre
enfatizando a estética e a escrita literárias. Com Oneyda Alvarenga, ex-aluna
do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, o professor discutia
questões de trabalho, culturais, literárias, musicais com um tom de amizade
sincera.
Por sua vez, a relação com
Tarsila do Amaral, amiga e uma das maiores expoentes do modernismo nas artes
plásticas, revela outra faceta do epistolário de Andrade. A troca de cartas
entre os dois reforçava a conexão entre literatura e artes visuais, mostrando
como Mário enxergava a importância da interseção entre diferentes expressões
culturais. Outra relação epistolar relevante foi com Cândido Portinari, em que
discutiam questões artísticas. Ambos compartilhavam o desejo de representar o
Brasil de maneira plural, e as cartas revelam discussões sobre a estética
modernista, o papel do artista na sociedade e os desafios de criar uma arte
acessível e ao mesmo tempo sofisticada.
Não podemos esquecer que seus
escritos epistolares tinham também uma dimensão sociocultural. Mário de Andrade
se preocupava não apenas com a literatura, mas com a arte nacional de modo mais
amplo. Suas cartas discutiam os rumos do país, nos campos da música, do
folclore, e da educação. Ao fazer isso, ele transformou sua correspondência em
um instrumento de intervenção crítica, defendendo o valor das expressões
culturais nacionais e questionando excessivas influências estrangeiras. Essa
preocupação com a identidade nacional aparece, por exemplo, em sua
correspondência com Oneyda Alvarenga, ou mesmo Câmara Cascudo, quando,
discutiam a necessidade de valorizar a música popular brasileira e garantir a
preservação das tradições regionais, algo que Andrade via como essencial para a
consolidação da cultura nacional.
Além da dimensão intelectual e
cultural, havia também um forte caráter emocional em suas cartas. O professor
de música escrevia com paixão, seja para incentivar, seja para discordar, seja
para confessar suas angústias. O tom pessoal e intenso que marca sua
correspondência reforça a ideia de que ele via na escrita epistolar um espaço
de elaboração do pensamento e da subjetividade. Esse aspecto pode ser visto em
suas cartas a Carlos Drummond de Andrade, nas quais discutiam questões
literárias e demandas diversas do cotidiano pessoal de cada um deles, o que demonstra
uma cumplicidade que ia além da literatura, revelando os anseios de dois dos
maiores escritores brasileiros.
Outro aspecto interessante é que,
por meio de sua correspondência, Mário de Andrade estabeleceu diálogos até
mesmo com escritores estrangeiros, o levando a trocar ideias com estudiosos da
Europa e das Américas, buscando ampliar sua visão sobre literatura e arte.
Essas cartas refletem sua postura cosmopolita, sem perder de vista o
compromisso com a cultura brasileira.
Ademais, as cartas de Mário de
Andrade são registros históricos inestimáveis, pois documentam o processo
criativo de um dos maiores escritores brasileiros e fornecem percepções sobre a
efervescência cultural da primeira metade do século XX. O epistolário de
Andrade é uma fonte rica para estudiosos da literatura e da cultura brasileira.
De fato, é preciso ter em mente
que a correspondência de Mário de Andrade não é um mero complemento de sua obra
literária, mas um vasto material de pesquisa. Suas cartas são, ao mesmo tempo,
um espaço de crítica, de diálogo e de aprendizado, pois foi por meio delas que
ele ajudou escritores a se promoverem e a estruturar uma visão de modernidade
para a arte brasileira, permanecendo, ainda hoje, como um dos mais valiosos
testemunhos de sua atuação como figura central do pensamento cultural
brasileiro da primeira metade do século XX.
[1]
O comentário a respeito do livro de Fernando Sabino está na carta enviada por
Mário de Andrade no dia 10-01-1942. ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem
escritor. 3ª ed. São Paulo: Record, 1993. p. 15-18.
[2]
Expressão encontrada nos anexos da edição organizada pelo professor Marcos
Antonio de Morais, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da
Universidade de São Paulo. Correspondência: Mário de Andrade & Manuel
Bandeira. São Paulo: Edusp, 2001. p. 681.
[3]
Trecho extraído da Carta de Mário de Andrade à Câmara Cascudo escrita em
26-11-1925. ANDRADE, Mário de; CASCUDO, Luís da Câmara. Câmara Cascudo e
Mário de Andrade. Cartas, 1924-1944. Organização e notas Marcos Antonio de
Moraes. São Paulo: Global, 2010



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