Sobre Cartas e Travessias - Um Missivista Contumaz


  Mário de Andrade (1893-1945) acumulou cerca de oito mil correspondências ao longo da vida, incluindo as enviadas, recebidas e de terceiros, conforme atesta o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Por meio desse intercâmbio, manteve um diálogo constante com escritores, artistas e pesquisadores, formando uma rede de reflexão e troca que contribuiu para moldar o pensamento literário brasileiro.

A correspondência do escritor paulistano era, acima de tudo, instrumento de formação e orientação entre pares. Seu relacionamento com Fernando Sabino é um exemplo claro dessa dimensão didática. Quando o então jovem escritor mineiro enviou um exemplar de “Os Grilos Não Cantam Mais”[1] para Andrade, este não hesitou em responder com sua avaliação. O impacto desse diálogo foi determinante na carreira de Sabino, que passou a ter no escritor paulista uma espécie de mentor. A correspondência entre os dois revela um interlocutor mais maduro que não apenas encorajava, mas exigia disciplina e aprimoramento estilístico, reforçando sua postura de intelectual comprometido com o desenvolvimento da literatura brasileira.

O mesmo rigor crítico aparece em sua relação epistolar com Manuel Bandeira, com quem trocou um volume substancial de cartas, talvez o maior, compondo um dos diálogos mais ricos da literatura brasileira. O poeta pernambucano, que vivia no Rio de Janeiro, via em Mário um interlocutor atento, e as cartas entre os dois revelam discussões profundas sobre arte, estética, teoria literária e reflexões sobre o ofício do poeta. Bandeira se referia às missivas do amigo como “pensamentadas”[2], uma denominação que reconhecia a complexidade reflexiva desses escritos. Para ele, as cartas de Mário eram mais do que registros pessoais; eram espaços de debate, planejamento e maturação de ideias.

Essa relação epistolar entre os dois modernistas teve momentos de franqueza crítica. Bandeira pedia a Mário opiniões sem complacência sobre seus poemas e lamentava quando não recebia um retorno mais incisivo. Já Mário, em resposta, reconhecia a necessidade de ser mais crítico, mas ao mesmo tempo manifestava um certo receio em ser mal compreendido.

Além das discussões sobre poesia, as cartas trocadas entre Mário e Bandeira revelam também a preocupação com a construção de uma literatura nacional, posto que tinham concepções distintas sobre o lirismo e a estrutura da poesia moderna, como demonstram os debates sobre verso livre, ritmo e sentimentalismo. Enquanto Bandeira afirmava que o lirismo bastava por si só, Mário insistia que a poesia exigia mais do que inspiração: precisava de crítica e consciência técnica. Nesse sentido, o que se percebe é um diálogo de caráter tanto técnico quanto afetivo, sendo uma troca sincera sobre projetos, ideias e até angústias existenciais.

Outro importante interlocutor de Mário foi Luís da Câmara Cascudo, com quem manteve uma frutífera correspondência entre 1924 e 1944. Nesses vinte anos, os dois construíram uma relação que transcendeu a troca de ideias sobre folclore e cultura popular, consolidando-se como uma amizade firme e verdadeira. O historiador e sociólogo potiguar, um dos mais respeitados estudiosos da cultura popular brasileira, encontrava em Mário um parceiro de reflexões sobre a identidade nacional e a valorização das manifestações populares. Nas cartas, fica evidente a influência mútua e o compromisso compartilhado com o registro e a preservação da cultura brasileira. Mário via em Cascudo um amigo de confiança, alguém que, apesar da distância geográfica, lhe oferecia um suporte intelectual e afetivo. Em uma das cartas, o escritor paulista chega a declarar que havia arranjado um “amigo mesmo de verdade”[3].

Além de Sabino, Bandeira e Cascudo, Andrade manteve correspondência com Carlos Drummond de Andrade, Prudente de Morais Neto, Pedro Nava, Tarsila do Amaral, Portinari, Oneyda Alvarenga, escritores argentinos e tantos outros. Suas cartas a Drummond, por exemplo, eram repletas de reflexões sobre poesia e modernismo, sempre enfatizando a estética e a escrita literárias. Com Oneyda Alvarenga, ex-aluna do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, o professor discutia questões de trabalho, culturais, literárias, musicais com um tom de amizade sincera.

Por sua vez, a relação com Tarsila do Amaral, amiga e uma das maiores expoentes do modernismo nas artes plásticas, revela outra faceta do epistolário de Andrade. A troca de cartas entre os dois reforçava a conexão entre literatura e artes visuais, mostrando como Mário enxergava a importância da interseção entre diferentes expressões culturais. Outra relação epistolar relevante foi com Cândido Portinari, em que discutiam questões artísticas. Ambos compartilhavam o desejo de representar o Brasil de maneira plural, e as cartas revelam discussões sobre a estética modernista, o papel do artista na sociedade e os desafios de criar uma arte acessível e ao mesmo tempo sofisticada.

Não podemos esquecer que seus escritos epistolares tinham também uma dimensão sociocultural. Mário de Andrade se preocupava não apenas com a literatura, mas com a arte nacional de modo mais amplo. Suas cartas discutiam os rumos do país, nos campos da música, do folclore, e da educação. Ao fazer isso, ele transformou sua correspondência em um instrumento de intervenção crítica, defendendo o valor das expressões culturais nacionais e questionando excessivas influências estrangeiras. Essa preocupação com a identidade nacional aparece, por exemplo, em sua correspondência com Oneyda Alvarenga, ou mesmo Câmara Cascudo, quando, discutiam a necessidade de valorizar a música popular brasileira e garantir a preservação das tradições regionais, algo que Andrade via como essencial para a consolidação da cultura nacional.

Além da dimensão intelectual e cultural, havia também um forte caráter emocional em suas cartas. O professor de música escrevia com paixão, seja para incentivar, seja para discordar, seja para confessar suas angústias. O tom pessoal e intenso que marca sua correspondência reforça a ideia de que ele via na escrita epistolar um espaço de elaboração do pensamento e da subjetividade. Esse aspecto pode ser visto em suas cartas a Carlos Drummond de Andrade, nas quais discutiam questões literárias e demandas diversas do cotidiano pessoal de cada um deles, o que demonstra uma cumplicidade que ia além da literatura, revelando os anseios de dois dos maiores escritores brasileiros.

Outro aspecto interessante é que, por meio de sua correspondência, Mário de Andrade estabeleceu diálogos até mesmo com escritores estrangeiros, o levando a trocar ideias com estudiosos da Europa e das Américas, buscando ampliar sua visão sobre literatura e arte. Essas cartas refletem sua postura cosmopolita, sem perder de vista o compromisso com a cultura brasileira.

Ademais, as cartas de Mário de Andrade são registros históricos inestimáveis, pois documentam o processo criativo de um dos maiores escritores brasileiros e fornecem percepções sobre a efervescência cultural da primeira metade do século XX. O epistolário de Andrade é uma fonte rica para estudiosos da literatura e da cultura brasileira.

De fato, é preciso ter em mente que a correspondência de Mário de Andrade não é um mero complemento de sua obra literária, mas um vasto material de pesquisa. Suas cartas são, ao mesmo tempo, um espaço de crítica, de diálogo e de aprendizado, pois foi por meio delas que ele ajudou escritores a se promoverem e a estruturar uma visão de modernidade para a arte brasileira, permanecendo, ainda hoje, como um dos mais valiosos testemunhos de sua atuação como figura central do pensamento cultural brasileiro da primeira metade do século XX.

 



[1] O comentário a respeito do livro de Fernando Sabino está na carta enviada por Mário de Andrade no dia 10-01-1942. ANDRADE, Mário de. Cartas a um jovem escritor. 3ª ed. São Paulo: Record, 1993. p. 15-18.

[2] Expressão encontrada nos anexos da edição organizada pelo professor Marcos Antonio de Morais, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo. Correspondência: Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: Edusp, 2001. p. 681.

[3] Trecho extraído da Carta de Mário de Andrade à Câmara Cascudo escrita em 26-11-1925. ANDRADE, Mário de; CASCUDO, Luís da Câmara. Câmara Cascudo e Mário de Andrade. Cartas, 1924-1944. Organização e notas Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Global, 2010

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